Bibliografia

Ludwig BINSWANGER

Ludwig Binswanger (1881- 1966) médico psiquiatra nascido na Suiça alemã, dirigiu a célebre clínica Bellevue em Kreuzlingen nas margens do lago de Constance. Após uma primeira influência psicanalítica, sobretudo por sua amizade com S. Freud com quem manteve correspondência durante trinta anos, rompe com a psicanálise e recusa o pensamento objetivante próprio às ciências naturais.

Sua ampla formação intelectual, não só como psiquiatra, mas também filosófica lhe permite marcante inspiração nas obras de E. Husserl e M. Heidegger. Em 1922 publica uma conferência intitulada “Sobre Fenomenologia” e inicia uma linha de pensamento dirigida pela exploração do conceito husserliano de intencionalidade da consciência. No ano de 1927, é publicado “Ser e Tempo” de Heidegger e esta obra propicia a Binswanger, com o conceito de ser-no-mundo heideggeriano, descrever os mundos constituídos dos doentes mentais e elaborar a “Daseinsanálise” como método fenomenológico de análise e estudo das manifestações psicopatológicas sempre a partir dos estudos de casos individuais.

Em 1956 publica “Três Formas da Existência Malograda” e em 1957 reúne os cinco estudos de casos daseinsanalíticos de esquizofrenia ( “Ilse, Ellen West, Jürg Zünd, Lola Voss e Suzanne Urban”) na obra “Esquizofrenia” para qual escreve uma importante introdução. Essas obras precedem sua última fase na qual Binswanger se apoia na fenomenologia transcendental inspirada pelo Husserl tardio nos estudos de Estrutura Temporal Fundamental, Subjetividade e Egologia Transcendental. Publica nessa fase “Melancolia e Mania” (1960) e “Delírio” ( 1965).

Wolfgang BLANKENBURG

Em breve.

Georges CHARBONNEAU

Médico e Psiquiatra, é diretor de Pesquisa da Université Paris 7. É co-fundador da revista L’Art du Compreender e atualmente é presidente da Association Le Circle Herméneutique e diretor da revista Le Circle Herméneutique. Formado na escola de psiquiatra fenomenológica de A. Tatossian e do filósofo P. Ricoeur, Charbonneau destaca-se na França e na Europa como um grandes nomes acadêmicos da psicopatologia fenomenológica. É o autor de numerosos trabalhos, dentre os quais destacam-se La Situation exitentielle des personnes hystériques e a bela Introduction à la Psychopathologie Phénoménologique, um das mais consistentes introduções às riquezas da psicopatologia fenomenológica.

John CUTTING

A trajetória de John Cutting é bastante original. Interessou-se inicialmente pelas bases neurocientíficas dos transtornos psicóticos, publicando relevantes trabalhos sobre o papel do hemisfério cerebral direito na esquizofrenia. Gradualmente, por meio de intensos estudos filosóficos, passou a dedicar-se à psicopatologia dos vividos, que denomina psicopatologia metafísica. Sua obra mais alentada é A Critique of Psychopathology. Nela, reintroduz a noção clássica de essência na psicopatologia, inspirando-se, para isso, na obra do filósofo Max Scheler. Sua concepção de essência psicopatológica é singular no cenário da psicopatologia contemporânea.

Gilberto DI PETTA

Um dos autores mais criativos e fecundos da psicopatologia fenomenológica contemporânea, Di Petta pertence à escola italiana de psicopatologia, da qual fazem parte autores como Bruno Callieri, Lorenzo Calvi, Arnaldo Ballerini e Giovanni Stanghellini. Essa escola apresenta uma influência direta da vertente alemã. A obra de Di Petta produz uma mescla da profundidade analítica germânica com a exuberância quase operística de seu próprio pensamento. Dedica-se ao tema das psicoses, em especial, daquelas ligadas às toxicomanias. O método fenomenológico, em seus escritos, recebe um tratamento interpessoal acentuado, no qual a participação direta do autor junto a seus pacientes se faz sentir a cada momento. Nel Nulla Exerci e Il mondo tossicomane são dois de seus trabalhos que merecem destaque.

Otto DÖRR

Professor Dörr é um dos grandes representantes da Psicopatologia Fenomenológica latino-americana. Formou-se e atuou no Chile, em Madri, em Freiburg, em Heidelberg, em Berna, em Paris e em Leipzig.  Em suas estadas em Heidelberg, foi contemporâneo de uma frutífera geração à qual também pertenciam Tellenbach, Blankenburg, Kimura e Kraus. Desenvolveu especial relação com seu mentor Tellenbach e com o filósofo Gadamer. Em sua exitosa carreira, a amplidão não é apenas geográfica. Essa reflete-se também na vastidão e na diversidade de interesses e atividades às quais Otto Dörr se dedicou. Os livros “Psiquiatría Antropológica: Contribuciones a una psiquiatría de orientación fenomenológico antropológica” (1995)” e “Espacio y Tiempo vividos: Estudios de antropología clínica” (1996) sintetizam a magnitude, a complexidade e a profundidade de sua obra. Com estilo claro e sucinto, estudou as complexas relações entre o fenômeno do delírio e a verdade, entre a esquizofrenia e a interpessoalidade, entre a depressão e a corporeidade, entre a histeria e epilepsia, entre a anorexia e a interação familiar, entre a temporalidade e a conduta afetiva, entre personalidade e psicopatologia, entre normalidade e anormalidade. Também evidenciou a problemática da interpessoalidade no processo terapêutico, segundo o enfoque fenomenológico-existencial.

Thomas FUCHS

Em breve.

Viktor von GEBSATTEL

Ao lado de Minkowski e Straus, é considerado fundador da Psicopatologia Fenomenológica. Dos autores clássicos, talvez seja Gebsattel o que tenha se dedicado ao mais amplo leque de interesses psicopatológicos. Sua grande obra, “Antropologia Médica”, reúne ensaios produzidos entre 1913 e 1956. A despeito do notável afastamento temporal destes trabalhos entre si, o leitor pode identificar o fio condutor do pensamento antropológico do autor, marcado pela concepção genético-estrutural de psicopatologia fenomenológica. É sob tal óptica que investiga patologias tão diversas quanto a depressão, fobias, fetichismo, desvios sexuais e toxicomania. No entanto, sua contribuição de maior destaque para a história da psicopatologia dá-se no campo das obsessões, com o ensaio “O mundo dos obsessivos”, contido nesta compilação.

Kurt GOLDSTEIN

Kurt Goldstein (1878-1965), estudou filosofia e medicina na Alemanha. Dedicou-se ao atendimento de pacientes com sequelas neurológicas da Primeira Guerra Mundial. Escreveu no exílio sua primeira e principal obra: A Estrutura do organismo (Der Aufbau des Organismus, 1934), publicado em inglês (The organism, 1939) e reeditado em 1995, com prefácio de Oliver Sacks. Nesta obra, em que propõe a teoria organísmica, considera toda manifestação patológica do homem como pertencente ao conjunto de todo o organismo.

Dedicou-se largamente ao estudo da linguagem, especialmente na obra “Language and language disturbances-Aphasic symptom complexes and their significance for medicine and theory of language” (1948), na qual tratou das dificuldades de linguagem em pacientes com lesões neurológicas. A compreensão dos sintomas afásicos foi dada dentro do conjunto de todo o ser, no contexto da nova condição após lesão cerebral. Os princípios de adaptação desenvolvidos a partir dos pacientes com ferimentos de guerra foram utilizados para compreender também a condição humana sem a presença da lesão neurológica.

Karl JASPERS

Embora seja controversa a participação do autor na psicopatologia fenomenológica, há duas realidades inegáveis. A primeira delas é a originalidade de Jaspers no emprego do termo fenomenologia para a psicopatologia. Em segundo lugar, embora muitos possam dizer que sua obra tenha ficado nos umbrais da fenomenologia em sentido mais específico, é patente que todo autor que se tenha autodeclarado tributário da tradição fenomenológica em psicopatologia passa por um necessário diálogo com Jaspers. Para o bem e para o mal, sua obra fundamental “Psicopatologia Geral” (1913) é o ponto de partida sobre o qual orbita continuamente a psicopatologia, fazendo com que este trabalho definitivo e magistral seja fonte inesgotável e incontornável para os interessados em fenomenologia.

Alfred KRAUS

Em breve.

Guilherme MESSAS

Médico e psiquiatra, mestre e doutor pela Faculdade de Medicina da USP. É membro fundador da Sociedade Brasileira de Psicopatologia Fenômeno-Estrutural, coordenador da Pós Graduação em Psicopatologia Fenomenológica da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e editor da Revista Psicopatologia Fenomenológica Contemporânea. Messas dedica-se aos estudos de psicopatologia fenomenológica há mais de 20 anos e é um dos nomes mais atuantes desta corrente no Brasil e na América Latina. Sua obra, marcada pela originalidade e erudição, parte de referências da filoasofia clássica e da fenomenologia psiquiátrica para ampliar e aprofundar de forma sofisticada a compreensão do objeto psicopatológico. É autor de diversos trabalhos, dentre os quais os livros Ensaio sobre a Estrutura VividaPsicose e Embriaguez.

Eugène MINKOWSKI

Eugène Minkowski (1885 –1972) é reconhecido como o primeiro psiquiatra a realizar as primeiras tentativas de descrição da experiência vivida, trazendo para o campo da psiquiatria o método fenomenológico. Judeu, de origem russa, teve sua vida perpassada por duas guerras mundiais, o que não o impediu de, ao lado de Strauss e Gebsattel, ser um dos fundadores da Psicopatologia Fenomenológica. Foi aluno de Husserl em Munique, assistente de Bleuler em Zurique no pré-Guerra. Alistou-se como voluntário no exército francês na Primeira Guerra Mundial, recebendo a cidadania francesa por sua bravura no combate. Logo após o período de guerra, Minkowski, fortemente influenciado pelas ideias de Bergson, publica, em 1927, o livro Esquizofrenia e, em 1933, O tempo vivido. Sua obra tem como fio guia essencial a proposta de uma investigação fenomenológica da experiência vivida de tempo para o estudo psicopatológico.

Virgínia MOREIRA

Inspirada pela fenomenologia de Merleau-Ponty, Moreira destaca-se pela fértil construção de um diálogo entre a obra desse filósofo e a fenomenologia clínica. Alinha-se entre os autores contemporâneos que costuram a reflexão filosófica com as necessidades efetivas de uma clínica apurada. Sua obra Clínica do Lebenswelt: Psicoterapia e Psicopatologia Fenomenológica atesta a riqueza com que essa síntese é atingida em seu pensamento. Realiza amplo trabalho acadêmico e de formação de novos psicopatologistas, alargando os limites de investigação do método. Em outra face de sua produção, Moreira vem apresentando, em regime de co-autoria, a obra de Tatossian para o português. Em perfeita afinação com esse mestre da psicopatologia francesa, esse trabalho franqueia pela primeira vez ao público de língua portuguesa o acesso ao autor.

Josef PARNAS

Josef Parnas (nascido em 1950) é professor de psiquiatria na Universidade de Copenhague e diretor médico do departamento de psiquiatria do hospital de Hvidovre. É co-fundador e pesquisador do “Centro de Pesquisa em Subjetividade” que é um importante centro de pesquisa interdisciplinar da Universidade de Copenhague que trabalha com diferentes tópicos como: subjetividade, intencionalidade, empatia, ação, percepção, corporiedade, consciência, esquizofrenia, autismo, etc. Possuem colaboração de diferentes disciplinas como a fenomenologia, filosofia analítica, hermenêutica, psiquiatria, neurociências, filosofia da religião, psicologia clínica e ciência cognitiva. As redes de colaboração incluem várias universidades americanas e europeias.

Nos últimos anos, Parnas tem sido particularmente ativo na investigação psicopatológica utilizando recursos filosóficos fenomenológicos. Autor de aproximadamente 200 publicações dentre as quais destacam-se: “Forging the links between phenomenology, cognitive neuroscience, and psychopathology: the emergence of a new discipline”; “Disturbance of the Experience of Self: A Phenomenologically-Based Approach”; “Anomalies of Imagination and Disordered Self in Schizophrenia Spectrum Disorders”; “Disordered Self in the Schizophrenia Spectrum: A Clinical and Research Perspective”.

Giovanni STANGHELLINI

O professor Giovanni Stanghellini é um grande expoente da Psicopatologia Fenomenológica atual. Em sua formação, interessou-se precocemente pela interface entre a Filosofia e a Psiquiatria, tendo como mentores o filósofo Paolo Rossi e o psiquiatra italiano Arnaldo Ballerini. Foi um dos responsáveis pela fundação das seções de “Filosofia e Psiquiatria” e “Psiquiatria e Humanidades”, da EPA (European Psychiatric Association) e da WPA (World Psychiatric Association) respectivamente. Escreve extensamente sobre os fundamentos filosóficos (epistemológicos e éticos) da psicologia e da psicopatologia, especialmente a partir da perspectiva fenomenológica e antropológica. Atua ativamente na difusão dessa área de conhecimento, como, por exemplo, através de seu trabalho como co-editor das séries “International Perspectives in Philosophy and Psychiatry”, publicados pela Oxford University Press. Também ministra diversos cursos visando a formação de profissionais em Psicopatogia Fenomenológica. Inspirado pela escola alemã de Heidelberg, na qual complementou sua formação, preocupou-se com as dimensões corporal (corporeidade; corpo vivido) e social (intersubjetividade; ser com o outro) da existência humana. Nesse sentido, destacam-se as obras:  “Disembodied Spirits and Deanimated Bodies” (2004) e “The Psychopathology of Common Sense” (2004). Recentemente, dedicou-se a estudar a fenomenologia e a psicopatologia da vida emotiva, principalmente na síndrome borderline, publicando o livro “Emotions and Personhood” (2013).

Erwin STRAUS

Um dos fundadores da psicopatologia fenomenológica, Straus se filia ao grupo de autores fenomenológicos que, como Minkowski, esforçaram-se por delimitar um campo específico para a psicologia e a psicopatologia dentro das ciências humanas. Em sua obra mais representativa, do período inicial de sua carreira (publicada em 1935), O sentido dos sentidos (Vom Sinn der Sinne), analisa as insuficiências da fundamentação cartesiana da psicologia. Procura demonstrar que a psicologia deve basear-se na unidade dos sentidos e dos movimentos, para que possa traduzir a real situação humana vivida. A despeito do caráter reflexivo de sua principal obra, Straus jamais se limitou a fazer da psicologia uma derivação da filosofia. Suas obras psicológicas e psicopatológicas, das quais se destacam Acontecimento e vivência (Geschehnis und Erlebnis) e Psicologia Fenomenológica exalam uma síntese ímpar entre erudição e capacidade clínico-reflexiva. Deixou importantes contribuições para o tema das fobias, das obsessões e, sobretudo, dos fenômenos alucinatórios.

Maria Lucrecia ROVALETTI

Professora Emérita da Universidade de Buenos Aires, Rovaletti possui formação em filosofia e psicologia fenomenológicas, o que lhe permite transitar com facilidade ente os dois campos, que conhece muito bem. Seu vasto escopo de interesse vai da bioética ao problema do corpo e da temporalidade no pensamento atual, passando pelo aprofundamento em questões epistemológicas. Recentemente publicou Fenomenología, Filosofía y Psico(pato)logra, no qual sintetiza suas várias décadas de estudos e atuação docente nesses três temas que vêm norteando sua atividade intelectual.

Arthur TATOSSIAN

Psiquiatra francês de origem armênia, formou-se médico em Marselha, para onde seus pais haviam imigrado como refugiados de guerra. Organizou o serviço de psiquiatria de Sainte Marguerite e dirigiu o Serviço de Psiquiatria no Hospital de la Timone. Seu conhecimento em psicopatologia fenomenológica é vasto e foi influenciado pela leitura dos clássicos da filosofia e psiquiatria. Sua obra tem os méritos da clareza e pluralidade de temas, sem perder a profundidade necessária, colocando sempre em destaque a necessidade de uma psicopatologia fenomenológica com ênfase na experiência clínica. Sua obra mais expressiva é de 1979 e foi traduzido para o português pela editora Escuta em 2006 sob o título A Fenomenologia das psicoses. Em francês, textos importantes também foram agrupados e editados em 1985 em La phénoménologie psychiatrique (Editions Acanthe). Em 2012, a Editora Escuta traduziu alguns de seus principais artigos e publicou postumamente, com a ajuda e co-autoria da Prof Virginia Moreira, Clínica do Lebenswelt: psicoterapia e psicopatologia fenomenológica.

Hubertus TELLENBACH

Inspirando-se nas obras de Binswanger, Gebsattel e Minkowski e Strauss, o autor debruçou-se na análise da existência abordando o tema da endogeneidade como um terceiro campo etiológico, além do somático e psíquico. Publicou em 1961, “Melancholie. Problemgeschichte, Endogenität, Typologie, Pathogenese, Klinik”. Em sua obrar descreve a “ordenalidade” como traço fundamental do “typus melancholicus” a partir da concepção da experiência vivida com pacientes. Assim como, atem-se a conceitualizar a situação,conjuntura na qual emerge o fenômeno patológico, como a melancolia, segundo a interseção do universal com o singular, ultrapassando uma análise dicotômica de causalidade.

Jürg ZUTT

Jürg Zutt foi professor de psiquiatria em Frankfurt, e recebeu grande influência da escola fenomenológica de Heildelberg. Apesar da proximidade com a fenomenologia de Ludwig Binswanger, Viktor von Gebsattel e Erwin Straus, Zutt raramente utilizou o termo fenomenologia em seus textos, apoiando sua teoria no que chamou de Antropologia Compreensiva. Versou sobre aspectos metodológicos da prática clínica, com a necessidade de penetração nas estruturas patológicas da mente, chegando a propor entendimentos sobre o mundo psicótico do esquizofrênico. Tem como expoente de sua obra o livro “Psiquiatria Antropológica”.